REVISTA DA CULTURA

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Quando o escritor Ronaldo Correia de Brito nasceu, em 1951, na microrregião dos Inhamuns, sudoeste cearense, o sertão ainda era um lugar mítico. Das entranhas da terra castigada pela seca, escorriam rios perenes, brotavam resquícios de Mata Atlântica, nascentes para aves silvestres e rebanhos de gado beberem. Hoje já não há mais: as fazendas e engenhos feudais cederam suas ruínas ao avanço de uma nova civilização, urbana e cética, que devora o solo crestado e cospe sua gente. A profecia de Antônio Conselheiro se fez, enfim, ainda que contraditória: o sertão seco do Nordeste, como o conhecemos, virou um mar de antenas parabólicas, lan houses e jipes.

É neste universo sertanejo ambíguo, sem heróis, cangaceiros ou cavaleiros a galope, que Ronaldo Brito constrói sua literatura singular, realista e original. Uma escrita distante do regionalismo e da romantização narrativa presentes em livros como A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, e O sertanejo (1875), de José de Alencar. Em comum, apenas o lugar, a região esquecida, o povo marcado pela sina da morte e do abandono. Seus personagens trazem consigo a dúvida, a angústia existencial que, invariavelmente, desembocam nas origens e na realidade física decadente.

Dono de uma linguagem pós-moderna, que mescla elementos dos estilos cinematográfico, teatral e, claro, literário, Brito é um dos autores contemporâneos mais comentados pela crítica na atualidade. Médico e dramaturgo, a literatura sempre foi para ele, no entanto, uma amante intensa, mas sem paradeiro. Com três livros de contos – As noites e os dias (1977), Faca (2003) e Livro dos homens (2005) – e uma novela infanto-juvenil (O pavão misterioso, de 2004) publicados, faltava-lhe, para selar a união definitiva, um romance. Ano passado, ele lançou Galileia, uma obra ambientada no sertão cearense que toca em temas, universais como morte, traição e existencialismo. O livro, que seria, inicialmente, uma saga de mil páginas, foi condensado para um quarto do tamanho original. A expectativa pela publicação consumiu quase dez anos de revisões e horas em frente ao computador, já que, para ele, escrever ço de paciência para encontrar as palavras certas.

É preciso entender a relação do escritor com a terra natal, sua fonte de inspiração. A morte desse mundo arcaico e rural que renasce urbano revela um movimento do qual ele mesmo foi protagonista: a migração. Desde os 17 anos, ou seja, há quase quatro décadas, o autor cearense está fixado no Recife, onde estudou e fez faculdade. Foi, porém, em Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, que moldou seu imaginário. Aos 5 anos, mudou-se com pai, mãe e três irmãos para o Crato, no Cariri cearense, uma cidade ainda de pequeno porte. “Na verdade, sou uma pessoa que nasceu no sertão, saiu dele e foi morar em uma cidade pequena, ainda no universo rural, mas completamente diferente do sertão”, teoriza Brito.

CRATO, A RIMINI DE RONALDO
E quem disse que o sertão é árido e seco? Uma mesorregião isolada do mundo? Pelo menos, no Crato, a situação era diferente. Além de ser uma região vistosa em verde e rios, se comparada a regiões próximas, a cidade era, naquela época, prolífica em termos de oferta cultural. Durante a adolescência, Ronaldo teve contato com a cultura cosmopolita dos lisérgicos anos 1960, mesmo que à distância, numa relação mediada pelo cinema e pelo rádio. Ouvia, por exemplo, os Beatles e os Rollings Stones. Teve a chance, também de assistir, nas três salas existentes no pequeno município, a filmes clássicos do neorrealismo italiano (Lucchino Visconti, Vittorio de Sica), da nouvelle vague francesa (Jean-Luc Godard, François Truffaut) e do cinema moderno norte-americano (John Houston, John Ford). Pelo aprendizado seminal, Brito compara sua segunda cidade a Rimini, terra natal de Frederico Fellini. “Eu digo muito que Crato é minha Rimini. Era uma cidade realmente deslumbrante, porque o cinema me trazia tudo”, lembra.

O mesmo deslumbramento pelo Crato seria experimentado, anos mais tarde, pelo Recife. Cidade-anfíbia, entrecortada por rios, canais e pontes, a capital pernambucana significou, para o então candidato ao curso de medicina, um porto fértil para ideias e, por consequência, seu primeiro flerte com a produção literária. Em cada esquina, rua ou biblioteca, a cidade exalava abstração. “Mesmo estudando medicina, eu sempre buscava formas de estar na rua. O que eu mais gostava era de andar, ir para as pontes, andar praticamente o dia inteiro. Recife, naquela época, não tinha prédios, só casarios. Era muito mais agradável a temperatura, havia a brisa marítima. Tive uma paixão muito grande por esta cidade. Quando cheguei, foi como se tivesse escolhido viver aqui”, conta. Em 1970, um ano após chegar ao Recife, Brito publica seu primeiro conto, Lua Cambará, que viraria filme sete anos depois.

Nessa época, suas principais influências literárias foram os poetas Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, o romancista e dramaturgo Osman Lins e o teatrólogo Hermilo Borba Filho – todos pernambucanos. Mas Brito bebeu na fonte, sobretudo, dos russos e dos latino-americanos. Lia, compulsivamente, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov, Tolstoi, Gogol. Nos anos 1970, havia uma moda de se devorar Jorge Luís Borges, Octavio Paz e Gabriel García Marquez. Assim como, na onda existencialista, era cool ler Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Tudo isso Brito mastigou, filtrou e absorveu como uma marca, que vem à tona, ainda.

BÍBLIA, PRIMEIRO LIVRO DE NARRATIVAS
Ateu, Ronaldo Correia de Brito cresceu apartado da cultura judaico-cristã, sem cumprir rituais religiosos comuns nas cidades interioranas, desenvolvidas em torno de igrejas. Em família, não eram cultivados hábitos católicos, embora a formação assim tivesse sido, a não ser ler a Bíblia. Durante sua infância, era este seu único rito litúrgico. Mas não para esse fim, de reza ou oração. Era, meramente, narrativo, como um rico livro de histórias. O pai, tão ateu quanto ele, lhe apresentou uma seleta com histórias da Bíblia Sagrada, ilustrada com gravuras de Gustave Doré quando ele estava com 7 anos. Era o seu primeiro contato lúdico com o universo moralista dos escritos antigos. “Com 3 anos, eu já folheava os livros. Cuspia e matava, rasgava as páginas e cuspia em cima das figuras. Aos 7, meu pai já me botou para ler a história de São José do Egito. Meu pai costumava ler alguma coisa antes de eu dormir”, diz.

foto REVISTAEsta experiência com o universo bíblico serviu de ponto de partida para que Ronaldo de Brito, já na fase adulta, realizasse experimentações com a narrativa clássica: além da Bíblia, a mitologia grega. Talvez uma de suas principais características, a dialética do homem versus o sagrado aparece com força nos seus trabalhos como dramaturgo e roteirista, facetas nas quais é mais conhecido do que como escritor. Além de contista, ele é autor dos textos para teatro Bandeira de São João e Arlequim, que resgatam o folclore e a cultura nordestina para a linguagem moderna. Mas seu maior sucesso é a peça Baile do menino Deus, criada há 25 anos, em parceria com Assis Brasil e Antonio Madureira, e ainda hoje encenada no Recife. O texto, que mistura folguedos regionais do bumba-meu-boi, caboclinhos e maracatu com a história bíblica do nascimento de Jesus, alcançou tiragem de quase 500 mil em projeto do Ministério da Educação de acesso à leitura para escolas públicas. Um fenômeno em termos editorais. E a obra será editada

Em Galileia, Ronaldo de Brito sai do universo folclórico para investigar a seara psicológica. No livro, ele narra a viagem dos primos Ismael, Davi e Adonias, que retornam ao ambiente de infância, o sertão cearense, o qual abandonaram para visitar o avô Raimundo Caetano. Nesse reencontro, eles se deparam com um sertão diferente dos registros afetivos, cruel e impermeável, o que gera conflitos e atritos até entre eles. A história guarda ecos das tragédias gregas, cujas narrativas são pontuadas por dilemas existenciais. Para o autor, o sertão idealizado e puro morreu: “Eu acho que o sertão é uma periferia urbana. O que existe é cidade, com todas as desgraças, todos os vícios, todas as misérias e todas as glórias de uma periferia do Recife, de uma periferia de São Paulo, de qualquer periferia urbana. Encontrei o sertão em Paris, em um bairro de negros junto a Montmartre. Senti como se estivesse numa cidade de interior. Até buchada tinha para vender”. Ronaldo prepara um novo romance, desta vez ambientado no Recife, ainda sem previsão de lançamento. ©

FONTE: http://www2.livrariacultura.com.br/culturanews/rc23/index2.asp?page=perfil

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